O barulho dos corredores amontoados de gente no Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro, no centro da cidade, não consegue abafar as pisadas firmes dos saltos agulhas das juízas Mirela Erbisti, de 42 anos, e Tula Mello, de 43. “Você vai falar com a doutora Tula? Então vai ver só: ela é muito bonita, nem parece juíza”, diz um segurança do andar em que a magistrada trabalha, sem perceber o preconceito embutido no comentário. Aprovadas no concurso da magistratura de 2001, quando se conheceram, Mirela e Tula chamam mesmo a atenção – e não só pelos longos cabelos loiros ou pelas tatuagens aparentes.

Desde março elas vêm causando burburinho com o programa “Justo Eu” no Youtube, em que discutem temas atuais e polêmicos da sociedade. Na pauta estão machismo, direitos dos transexuais, inclusão de pessoas com autismo, violência doméstica e poliamor, por exemplo Mirela é titular da 3ª Vara de Fazenda Pública e professora de criminalística. Foi ela quem, em 2017, manteve a proibição do Estado do Rio em conceder ou renovar benefícios fiscais, no auge da crise econômica fluminense. Juíza da 20ª Vara Criminal e mestre em criminologia, Tula trabalhou no caso do jornalista Tim Lopes (morto por bandidos, em 2002, no Complexo do Alemão), julgou os nadadores americanos Ryan Lochte e James Feigen, que inventaram ter sido assaltados na Olimpíada de 2016, e obrigou a remoção de chefes do tráfico para fora do Rio. “Não tenho medo. Dia desses, dei uma pena de quase 30 anos, e o réu me agradeceu. Falei: ‘Tá me agradecendo por quê? Tá debochando?’”. E ele respondeu que estava agradecendo porque tinha levado um tiro na perna e não conseguia cirurgia – e eu determinei o procedimento sob pena de multa. É isso, juiz precisa garantir o direito de todos”, diz Tula.

A ideia do canal surgiu quando as duas perceberam que os filhos não saíam do Youtube. “Eles são os maiores entusiastas do programa”, diz Tula, mãe e madrasta de quatro crianças. “Outra motivação é acabar com a ideia de que juiz é um ser sisudo, sem graça. Queremos mostrar o oposto, que somos modernas e normais apesar da solenidade das audiências”, completa Mirela, que é mãe de dois filhos.

O programa já teve cerca de 20 mil visualizações. Ele é gravado no Museu da Justiça, no Rio, com um cinegrafista que usa duas câmeras, e os episódios costumam ir ao ar às quintas-feiras. “Falamos de assuntos que estão em pauta agora. Um dos próximos, será erro médico, por causa da repercussão do Dr. Bumbum”, conta Tula, ressaltando que elas evitam casos que ainda estejam em julgamento ou decisões que tenham sido tomadas por colegas. As entrevistadas do “Justo Eu”, quase sempre são mulheres: a delegada federal Paula Mary falou de pedofilia, a defensora pública Letícia Furtado, da defesa de direito de pessoas transgêneros e transexuais, e a juíza e escritora Andréa Pachá, sobre poliafeto.

Tula e Mirela são fãs de tatuagens. Além dos clássicos nomes de filhos, Tula tem escritas pelo corpo as palavras “equilíbrio”, “força” e “sabedoria”. Dentre as tattoos de Mirella há uma chave, que ela copiou do filme “O Segredo”. Se alguém estranhou uma juíza de piercing de argolinha no nariz, o caso não chegou ao conhecimento de Tula. “Vou pro tribunal com um piercing igual ao da mãe da princesa Meghan Markle. Direito serve para isso, garantir a liberdade do outro. Seja gay, trans, mulher, cada um deve respeitar o direito do próximo de ser como ele quiser”, defende.

As duas juízas foram apresentadas ao tenebroso mundo dos haters quando trouxeram para o programa da internet questões jurídicas envolvendo transexuais. “Não há livro de Direito atualizado com temas novos, como esse; por isso é importante nosso canal”, diz Mirela. Depois da transmissão, os haters apareceram. E elas tiraram de letra. “Adoro. Quando soube do primeiro hater, liguei pra todo mundo pra contar: ‘agora a gente é famosa’. Só famoso tem haters”, gargalha.

“Teve um que escreveu: ‘É só o que faltava, juízas querendo ser youtubers’, conta Tula. Respondi: ‘Calma, não quero tirar o espaço dos youtubers. Eles são muito melhores que a gente. Nosso interesse é levar cidadania num canal aberto'”

Firmes nas decisões em plenário, a insegurança das magistradas, no entanto, aparece quando avaliam o programa na internet. “Não gosto da minha voz. No início, gravamos quatro vídeos e não lançávamos, porque eu implicava com as olheiras, os gestos, o cabelo… Aí fazia tudo de novo”, entrega Tula. Até que seu filho mais velho sentenciou: “Cadê o vídeo, mamãe? Se não lançar, você não vai fazer nada na internet”. Desde março, as crianças – e muitos colegas de tribunal – não perdem um. O canal facilitou até os papos de elevador. “Se alguém hoje me pergunta o que é trans, pego o celular dela e mando o link do programa”, diz Mirela.

Fonte: UOL